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Dienstag, 28. April 2009

seitens der Städte, Lissabon, Diário gráfico,

LISSABON 2009
Kino:G.Ludovice

Diário gráfico, Partes de cidades
Lissabon 2009

seitens der Städte.. BERLIN: Sartre

BERLIN Kino:G.Ludovice2008
Sartre permameceu em Berlim entre 1933 e 1934.

Jean-Paul Sartre
Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, 21 de Junho de 1905 — Paris, 15 de Abril de 1980) foi um filósofo francês, escritor e crítico, conhecido representante do existencialismo. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.
Repeliu as distinções e as funções oficiais e, por estes motivos, se recusou a receber o
Prémio Nobel de Literatura de 1964. Sua filosofia dizia que no caso humano (e só no caso humano) a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência.
1905 a 1917: a formação do escritor
Jean-Paul Sartre era filho de Jean-Baptiste Marie Eymard Sartre, oficial da marinha francesa
e de Anne-Marie Sartre (Nascida Anne Marie Schweitzer). Quando seu filho nasceu Jean-Baptiste tinha uma doença crônica adquirida em uma missão na Cochinchina. Após o nascimento de Jean-Paul ele sofreu uma recaída e retirou-se com a família para Thiviers, sua terra natal, onde morreu em 21 de setembro de 1906.

Jean-Paul, órfão de pai, e então com 15 meses, muda-se para Meudon com sua mãe, onde passam a viver na casa de seu avós maternos. O avô de Sartre, Charles Schweitzer nasceu em uma tradicional família protestante alsaciana da qual faz parte, entre outros, o famoso missionário Albert Schweitzer, sobrinho de Charles. Ao fim da guerra franco-prussiana, Charles optou pela cidadania francesa e tornou-se professor de alemão em Mâcon onde conheceu e casou-se com Louise Guillemin, de origem católica, com quem teve três filhos, George, Émile e Anne-Marie.

Após o regresso de Anne-Marie, os quatro viveram em Meudon até 1911. O pequeno "Poulou", como Jean-Paul era chamado, dividia o quarto com a mãe. Em seu romance autobiográfico "As Palavras" (Les Mots) confessa que desde cedo a considerava mais como uma irmã mais velha do que como mãe.

De sua primeira infância ao fim da adolescência, Sartre vive uma vida tipicamente burguesa, cercado de mimos e proteção.[ Até os 10 anos foi educado em casa por seu avô e por alguns preceptores contratados. Com pouco contato com outras crianças, o menino tornou-se, em suas próprias palavras, um "Cabotino" e aprendeu a usar a representação para atrair a atenção dos adultos com sua precocidade.

Em 1911, a família Schweitzer mudou-se para Paris. Passa a ter acesso à biblioteca de obras clássicas francesas e alemãs pertencente ao seu avô. Após aprender a ler, Jean-Paul alterna a leitura de Victor Hugo, Flaubert, Mallarmé, Corneille, Maupassant e Goethe[9], com os quadrinhos e romances de aventura que sua mãe comprava semanalmente às escondidas do avô. Sartre considerava serem essas suas "verdadeiras leituras", uma vez que a leitura dos clássicos era feita por obrigação educacional.
A essas influências, junta-se o cinema, que frequentava com sua mãe e que se tornaria mais tarde um de seus maiores interesses.
Sartre conta em "As Palavras" que escrevia histórias na infância também como uma forma de mostrar-se precoce. Suas primeiras histórias eram cópias de romances de aventura, em que apenas alguns nomes eram alterados, mas ainda assim faziam sucesso entre os familiares.


Era incentivado pela mãe, pela avó, pelo tio (que o presenteou com uma máquina de escrever) e por uma professora, a sra. Picard, que via nele a vocação de escritor profissional. Aos poucos, o jovem Sartre passou a encontrar sua verdadeira vocação na escrita.
Apenas seu avô o desencorajava da escrita e o incentivava a seguir carreira de professor de letras. Sem enxergar nele o talento que os demais viam, mas conformado com o fato de que seu neto "tinha a bossa da literatura", incentivou Sartre a tornar-se professor por profissão e escrever apenas como segunda atividade. Assim, Sartre atribui ao avô a consolidação de sua vocação de escritor: "Perdido, aceitei, para obedecer a Karl, a carreira de escritor menor. Em suma, ele me atirou na literatura pelo cuidado que desprendeu em desviar-ma dela".

Em 14 de abril de 1917 sua mãe casa-se novamente, com Joseph Mancy, que passa a ser co-tutor de Sartre. Livre da dependência dos pais, Anne-Marie muda-se com Sartre para a casa de Mancy em La Rochelle. Nesta cidade litorânea, Sartre toma contato pela primeira vez com imigrantes árabes, chineses e negros. Mais tarde ele reconheceria esse período como a raiz de seu anticolonialismo e o início do abandono dos valores burgueses.

1921 a 1936: a formação do filósofo
Em 1921 retorna ao Liceu Henri IV, agora como interno. Encontra
Paul Nizan e os dois tornam-se amigos inseparáveis. De 1922 a 1924, ambos estudam no curso preparatório do liceu Louis-le-Grand, onde se preparam para o concurso da École Normale Superieure. Nessa época despertou seu interesse pela filosofia. Sua primeira influência importante foi a obra de Henri Bergson.

Em 1924 ingressou na École Normale Supérieure na mesma turma de Nizan, Daniel Agache e Raymond Aron.[ Músico e ator talentoso e sempre disposto a participar de brincadeiras e eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre os colegas. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades religiosas ("ateus" e "carolas"), e facções políticas: Socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas. Sartre adere aos ateus e aos pacifistas e enquanto Aron e Nizan aderem aos círculos socialistas e comunistas e começam a participar da vida política francesa, Sartre mantém o individualismo e o desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda Guerra. No campo filosófico, além de Bergson, passou a ler Nietzsche, Kant, Descartes e Spinoza. Já na escola começa a desenvolver as primeiras idéias de uma filosofia da liberdade leiga, da oposição entre os seres e a consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a desenvolver posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu principal interesse filosófico é o indivíduo e a psicologia.

Em 1928 presta o exame de mestrado e é reprovado. Durante o ano de preparação para a segunda tentativa, estuda com Nizan e André Maheu na Sorbonne. Conhece a namorada de Maheu, Simone de Beauvoir que mais tarde se tornaria sua companheira e colaboradora até o fim da vida. Maheu havia apelidado Beauvoir de "Castor", devido à semelhança de seu nome com Beaver (Castor em inglês). Sartre assume o apelido e passa a chamá-la de Castor pessoalmente e em todas as cartas que lhe escreveu. Na segunda tentativa do mestrado, Sartre passa em primeiro lugar, no mesmo ano em que Beauvoir obtém a segunda colocação.
Sartre e Beauvoir nunca formaram um casal
monogâmico. Não se casaram e mantinham uma relação aberta. Sua correspondência é repleta de confidências sobre suas relações com outros parceiros. Além da relação amorosa, eles tinham uma grande afinidade intelectual. Beauvoir colaborou com a obra filosófica de Sartre, revisava seus livros e também se tornou uma das principais filósofas do movimento existencialista. Sua obra literária também inclui diversos volumes autobiográficos, que frequentemente relatam o processo criativo de Sartre e dela mesma.
Entre
1929 e 1931, Sartre presta o serviço militar e torna-se soldado meteorologista. Escreve alguns contos e começa a trabalhar em seu primeiro romance, "Factum sur la contingeance" (Panfleto sobre a contingência), que depois viria a se chamar "La Nausée" (A náusea). Embora tenha se candidatado ao cargo de auxiliar de catedrático no Japão, ele é nomeado professor de filosofia de um liceu em Havre onde permanece até 1936[23]. Sartre ainda seria professor em Laon e Paris até 1944, quando abandonou definitivamente o magistério.

Em
1933, ele é apresentado à fenomenologia de Husserl por Raymond Aron, que havia retornado de um período como bolsista do Institut Français em Berlim. Percebendo a semelhança dessa corrente à sua própria teoria da contingência, Sartre fica fascinado e imediatamente começa a estudar a fenomenologia através de uma obra introdutória. Por sugestão de Aron, candidata-se à mesma bolsa e, aprovado, permanece em Berlim entre 1933 e 1934.

Durante esta viagem, estuda a fundo a obra de Husserl e conhece também a filosofia de Martin Heidegger. Publica em 1936 o artigo La Transcendence de l'Égo (A Transcendência do Ego), uma crítica à teoria do Ego Husserliana que por sua vez se baseava no Cogito cartesiano. Sartre desafia o conceito de que o ego é um conteúdo da consciência e afirma que ele está fora da consciência, no mundo e a consciência se dirige a ele como a qualquer outro objeto do mundo. Este é um dos primeiros passos para livrar a consciência de conteúdos e torná-la o "Nada" que mais tarde se tornaria um dos conceitos-chave do existencialismo. De volta à França, continua a trabalhar nas mesmas idéias e entre 1935 e 1939 escreve L'Imagination (A Imaginação), L'Imaginaire (O Imaginário) e Esquisse d'une théorie des émotions (Esboço de uma teoria das emoções). Volta então suas pesquisas para Heiddegger e começa a escrever L´Être et le néant (O ser e o nada).

Em 1938 publica o romance La Nausée (A náusea) e a coletânea de contos Le mur (O muro). A náusea apresenta, em forma de ficção, o tema da contingência e torna-se seu primeiro sucesso literário, o que contribui para o início da influência de Sartre na cultura francesa e no surgimento da moda existencialista que dominou Paris na década de 1940.

1939 a 1945: a gênese do intelectual engajado
Em
1939 Sartre volta ao exército francês, servindo na Segunda Guerra Mundial como meteorologista. Em Nancy é aprisionado no ano de 1940 pelos alemães, e permanece na prisão até abril de 1941. De volta a Paris, alia-se à Resistência Francesa, onde conhece e se torna amigo de Albert Camus (do qual já conhecia a obra e sobre quem já havia escrito um ensaio extremamente elogioso a respeito do livro O Estrangeiro). A amizade entre Sartre e Camus perdurará até 1952, quando os dois rompem a relação publicamente devido à publicação do livro do Camus O Homem Revoltado no qual Camus ataca criticamente o Stalinismo. Sartre defendia uma relação de colaboração critica com o regime da URSS e permitiu a publicação de uma critica desastrosa sobre o livro do Camus em sua revista Les Temps Modernes (critica esta que Camus respondeu de maneira extremamente dura) e que foi a gota d´água para o fim da relação de amizade). Mas até o final da vida Sartre admirará Camus, como ele mesmo expressa nas entrevistas que teve com Simone de Beauvoir em 1974 - e que ela publicou postumamente.
Em
1943 publica seu mais famoso livro filosófico, L'Être et le Néant (O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica), que condensa todos os conceitos importantes da primeira fase de seu sistema filosófico.










Sua participação na Resistência não é aceita por todos, e o filósofo Vladimir Jankélévitch o reprova por sua "falta de engajamento político" durante a ocupação alemã, e vê em seus posteriores combates em prol da liberdade uma tentativa de se redimir por esta atitude.
Em
1945, ele cria e passa a dirigir junto a Maurice Merleau-Ponty a revista Les Temps Modernes (Tempos Modernos), onde são tratados mensalmente os temas referentes à Literatura, Filosofia e Política. Além das contribuições para a revista, Sartre escreve neste período algumas de suas obras literárias mais importantes. Sempre encarando a literatura como meio de expressão legítima de suas crenças filosóficas e políticas, escreve livros e peças teatrais que tratam a respeito das escolhas que os homens tomam frente às contingências às quais estão sujeitos. Entre estas obras destacam-se a peça Huis Clos (Entre quatro paredes) (1945) e a trilogia Les Chemins de la liberté (Os caminhos da Liberdade) composta pelos romances L'age de raison (A idade da razão) (1945), Le Sursis (Sursis) (1947) e Le mort dans l'âme (Com a morte na alma) (1949).
No período mais prolífico de sua carreira escreve ainda várias peças de
teatro e ensaios. Na década de 1950 assume uma postura política mais atuante, e abraça o comunismo. Torna-se ativista, e posiciona-se publicamente em defesa da libertação da Argélia do colonialismo francês. A aproximação do marxismo inaugura a segunda parte da sua carreira filosófica em que tenta conciliar as idéias existencialistas de autodeterminação aos princípios marxistas. Por exemplo, a idéia de que as forças sócio-econômicas, que estão acima do nosso controle individual, têm o poder de modelar as nossas vidas. Escreve então sua segunda obra filosófica de grande porte, La Critique de la raison dialectique (A crítica da razão dialética) (1960), em que defende os valores humanos presentes no marxismo, e apresenta uma versão alterada do existencialismo que ele julgava resolver as contradições entre as duas escolas.


Beauvoir, Sarte e Che Guevara em 1960, em Cuba.

Beauvoir e Sartre 1960

Considerado por muitos o símbolo do intelectual engajado, Sartre adaptava sempre sua ação às suas idéias, e o fazia sempre como ato político. Em 1963 Sartre escreve Les Mots (As palavras, lançado em 1964), relato autobiográfico que seria sua despedida da literatura. Após dezenas de obras literárias, ele conclui que a literatura funcionava como um substituto para o real comprometimento com o mundo.
Em 1964 vence o Prêmio Nobel de literatura, que ele recusa pois segundo ele "nenhum escritor pode ser transformado em instituição".

Morre em 15 de abril de 1980 no Hospital Broussais (em Paris). Seu funeral foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas. Está enterrado no Cemitério de Montparnasse em Paris.
























Obra
L'imagination (A imaginação), ensaio filosófico - 1936
La transcendance de l'égo (A transcendência do ego), Ensaio filosófico -
1937
La nausée (
A náusea), romance - 1938
Le mur (O muro), contos -
1939
Esquisse d'une théorie des émotions (Esboço de uma teoria das emoções), ensaio filosófico -
1939
L'imaginaire(O imáginário), ensaio filosófico -
1940
Les mouches (
As moscas), teatro - 1943
L'être et le néant (
O ser e o nada), tratado filosófico - 1943
Réflexions sur la question juive (Reflexões sobre a questão judaica), ensaio político -
1943
Huis-clos (Entre quatro paredes), teatro -
1945
Les Chemins de la liberté (
Os Caminhos da Liberdade) trilogia, compreendendo:
L'age de raison (
A idade da razão), romance - 1945
Le sursis (Sursis), romance -
1947
La mort dans l'Âme (Com a morte na alma), romance -
1949
Morts sans sépulture (Mortos sem sepultura), teatro
1946
L'Existentialisme est un humanisme (O existencialismo é um humanismo), transcrição de uma conferência proferida em
1946 - Texto posteriormente rejeitado por Sartre.
La putain respectueuse (A puta respeitosa), teatro -
1946
Qu'est ce que la littérature? (O que é a literatura), ensaio -
1947
Baudelaire - 1947
Les jeux sont faits (Os dados estão lançados), romance -
1947
Situations, Vários volumes que reúnem ensaios políticos literários e filosóficos -
1947 a 1965
Les mains sales (As mãos sujas), teatro -
1948
L'Engrenage (A engrenagem), teatro -
1948
Orphée noir (Orfeu negro), teatro -
1948
Le diable et le bon dieu (O diabo e o bom Deus), teatro -
1951
Saint Genet, comédien et martyr (Saint Genet, ator e mártir), biografia de
Jean Genet - 1952
Les séquestrés d'Altona (Os seqüestrados de Altona) -
1959
Critique de la raison dialectique - Tome I: théorie des ensembles pratiques (Crítica da razão dialética, Tomo I), tratado filosófico -
1960
Les mots (
As palavras), Autobiografia - 1964
L'idiot de la famille - Gustave Flaubert de 1821 à 1857 (O idiota de família), biografia inacabada de
Gustave Flaubert. Apenas dois dos quatro volumes planejados foram escritos - 1971 (Vol I) – 1972 (vol II)
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Sonntag, 26. April 2009

seitens der Städte, Lissabon


seitens der Städte, Lissabon


seitens der Städte, London, Doris Lessing

LONDON - Em 1949 Doris foi para Londres como eu filho Peter Lessing.
KINO:G.Ludovice 2008

Doris Lessing CH, OBE, nascida Doris May Tayler, (Kermanshah, 22 de Outubro de 1919). Escritora britânica, autora de obra prolífica, que inclui trabalhos como as novelas The Grass is Singing e The Golden Notebook. A sua obra cobre um vasto leque estilístico, indo da autobiografia à ficção científica, com claras influências do modernismo.
Foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura de 2007, tendo a Academia Sueca apontado como razão determinante a existência na sua obra de características que fazem dela "a contadora épica da experiência feminina, que com cepticismo, ardor e uma força visionária escrutinou uma civilização dividida". Doris Lessing é a 11.ª mulher a ganhar este galardão nos seus 89 anos de história e a pessoa mais idosa que jamais o recebeu.

Doris Lessing foi oficialmente batisada como Doris May Tayler, em
Kermanshah, no Curdistão iraniano, então parte do Reino da Pérsia, onde viveu até os 6 anos de idade.
Filha do capitão Alfred Tayler e de sua mulher Emily Maude Tayler (nascida McVeagh), ambos cidadãos britânicos nascidos na Inglaterra. O seu pai tinha perdido uma perna durante a sua participação na Grande Guerra, e fora durante a sua convalescença da amputação que conhecera a sua futura esposa, então enfermeira no Royal Free Hospital de Londres. Após a Guerra, Alfred Tayler, que antes fora bancário, mudou-se com a família para Kermanshah, na Pérsia (agora Irão), aceitando um emprego como bancário no Imperial Bank of Persia, razão pela qual Doris Lessing ali nasceu em 1919.
Em 1925, quando a comissão de serviço terminou, a família mudou-se para a colónia britânica da Rodésia do Sul (hoje o Zimbabué), onde havia adquirido cerca de 1 000 acres (cerca de 405 ha) de matagal e o pai se pretendia fixar como agricultor, cultivando ali milho e tabaco.
Apesar da rudeza do ambienta que a rodeava, a mãe de Lessing pretendia levar na nova fazenda uma vida
eduardiana, o que talvez pudesse ter sido possível se a exploração prosperasse, o que não aconteceu, já que a fazenda, apesar do investimento e do esforço, não conseguiu atingir as expectativas criada.
Doris foi educada no Escola Secundária do Convento Dominicano de
Salisbúria (actual Harare), uma escola confessional só para raparigas operada pelas irmãs dominicanas. Nunca tendo gostado do ambiente criado pelas freiras que administravam a escola e em conflito permanente com a sua mãe, Doris abandonou a escola aos 13 anos, sendo autodidacta em toda a sua formação posterior.
Com o agudizar do conflito com a mãe, abandonou a casa aos 15 anos de idade, passando a trabalhar como ajudante de
ama, tomando conta das crianças de uma família. Por essa altura começou a ler materiais sobre política e sociologia que lhe eram emprestados pelos patrões. Por essa época, começou a escrever.

Em 1937, Doris mudou-se para Salisbúria para trabalhar como telefonista, casando em 1939 com Frank Charles Wisdom, com quem teve dois filhos (um filho e uma filha), antes do casamento se desfazer em 1943, quando o casal se separa ficando as crianças com o pai.
Após o seu divórcio, Doris é atraída para o Left Book Club, um círculo de leitores de inspiração comunista, tendo aí encontrado o seu segundo marido, o alemão Gottfried Lessing, que viria mais tarde a ser nomeado embaixador da República Democrática Alemã no Uganda, onde foi assassinado em 1979 durante a rebelião contra Idi Amin Dada. Casaram em 1945 e tiveram um filho (Peter Lessing) pouco antes do casamento ter acabado em novo divórcio no ano de 1949. Doris, que optou por manter o apelido germânico do segundo marido, partiu então para Londres na companhia do filho.
Pouco depois de se fixar em Londres com o filho Peter, Doris Lessing publica o seu primeiro romance, The Grass Is Singing (A Canção da Relva), saído a público ainda em
1949. O seu livro mais famoso, e que representaria o seu lançamento como escritora consagrada, foi The Golden Notebook (O Carnê Dourado), publicado em 1962.
Devido às campanhas públicas contra as armas nucleares e contra o regime de apartheid na África do Sul, Doris Lessing foi banida daquele país e da Rodésia durante muitos anos.
Para demonstrar as dificuldades enfrentadas por novos autores que queiram ver os seus livros editados, em
1984, tentou publicar duas novelas sob o pseudónimo de Jane Somers. As novelas foram rejeitadas pelo seu editor britânico, mas aceites por outro, Michael Joseph, e pela editora americana Alfred A. Knopf. A obra The Diary of a Good Neighbour foi publicada em 1983, e If the Old Could em 1984[17], tendo saído no Reino Unido e nos Estados Unidos da América ambas como escritas "Jane Somers.” Em 1984, ambas as novelas foram republicadas (Viking Books), como um volume único, sob o título de The Diaries of Jane Somers: The Diary of a Good Neighbor and If the Old Could, indicando Doris Lessing como a autora.
Doris Lessing declinou ser feita
dama, mas aceitou receber a ordem honorífica da Order of the Companions of Honour nos finais de 1999 pelo seu conspícuo serviço à nação. Foi também feita Companion of Literature pela Royal Society of Literature.

Os temas abordados por Doris Lessing variam extensamente, passando pelo exame das tensões inter-raciais, a política racial, a violência contra as crianças, os movimentos feministas e a exploração do espaço exterior.
A produção literária de Lessing é em geral dividida em três fases distintas, embora interrelacionadas e intercorrentes:
Temas de inspiração comunista (1944-1956), um período em que as temáticas sociais, encaradas de forma radical e sem compromisso, dominavam a sua produção literária. Embora de forma diferente, retornou a esta temática com a sua obra The Good Terrorist (1985);
Temas de análise psicológica (1956-1969), intimistas e de carácter quase autobiográfico;
Temas de inspiração sufista (1970-2000), explorados num ambiente de ficção científica enquadrado pela série Canopus.
Ao contrário de alguns autores, conhecidos principalmente pelos seu trabalho considerado como parte da mainstream social da sua época, Doris Lessing nunca hesitou admitir que escreve ficção científica. Ela foi mesmo a autora convidada de honra na 45.ª World Science Fiction Convention, a Worldcon, fazendo aí um discurso muito bem recebido, no qual descreveu a sua obra de ficção científica Memoirs of a Survivor como "uma tentativa de autobiografia".

A sua novela The Golden Notebook é considerada um clássico feminista por alguns estudiosos, mas não pela própria autora, que mais tarde escreveu que o tema da novela, centrado na análise de estados de ruptura mental como forma de obter uma cura das angústias próprias e de se auto-libertar de ilusões, tinha sido mal compreendido pelos críticos. Ela também lamenta que os críticos tenham ignorado a estrutura excepcional da novela. Como ela explica em Walking in the Shade, Lessing modelou Molly, em grande parte, sobre a sua boa amiga Joan Rodker, filha do autor e editor John Rodker.
Doris Lessing não gosta da idéia de ser considerada como uma autora
feminista. Quando inquirida sobre essa asserção, respondeu:
O que as feministas pretendem de mim é algo que ainda não alcançaram, que apenas pode vir da religião. Querem que eu preste testemunho. O que elas realmente gostariam realmente de me ouvir dizer era: 'Oh, irmãs, eu estou lado a lado convosco na vossa luta a caminho de um amanhecer dourado onde todos esses homens brutais não existirão mais.' Será que querem que as pessoas façam declarações simplistas acerca de homens e mulheres? De facto, querem! Com grande pena minha cheguei a esta conclusão.

Prémio Nobel de Literatura 2007
Doris Lessing disse num programa de rádio da BBC em Maio de 2008 que o facto de ter recebido o prestigiado prémio em 2007 redundou num "maldito desastre". Isto porque a subsequente atenção dos media, com constantes pedidos para entrevistas e sessões de fotografia, lhe tirou toda a energia para escrever uma linha que seja.


Obras publicadas
São as seguintes, ordenadas cronologicamente, as obras publicadas por Doris Lessing:
The Grass is Singing (1950)
This Was the Old Chief's Country (colectânea) (1951)
Five (contos) (1953)
Through the Tunnel (1955)
Fourteen Poems (1959)
Children of Violence (série) (1952-1969):
Martha Quest (1952)
Five (contos) (1953)
A Proper Marriage (1954)
A Ripple from the Storm (1958)
Landlocked (1965)
The Four-Gated City (1969)
Going Home (memórias) (1957)
The Habit of Loving (colectânea) (1957)
Wine (contos) (1957)
In Pursuit of the English (ensaio) (1960)
The Golden Notebook (1962)
Play with a Tiger (peça de teatro) (1962)
A Man and Two Women (colectânea) (1963)
African Stories (colectânea) (1964)
Cat Tales:
Particularly Cats (histórias e não ficção) (1967)
Particularly Cats and Rufus the Survivor (1993)
The Old Age of El Magnifico (histórias e não ficção) (2000)
Briefing for a Descent into Hell (1971)
The Temptation of Jack Orkney and other Stories (colectânea) (1972)
The Summer Before the Dark (1973)
A Small Personal Voice (ensaio) (1974)
Memoirs of a Survivor (1974)
Canopus in Argos: Archives (série) (1979-1983):
Shikasta (1979)
The Marriages Between Zones Three, Four and Five (1980)
The Sirian Experiments (1980)
The Making of the Representative for Planet 8 (1982)
The Sentimental Agents in the Volyen Empire (1983)
Stories (colectânea) (1978)
Publicadas sob o pseudónimo de Jane Somers:
The Diary of a Good Neighbour (1983)
If the Old Could... (1984)
The Good Terrorist (1985)
Prisons We Choose to Live Inside (ensaios) (1987)
The Wind Blows Away Our Words (1987)
The Fifth Child (1988)
African Laughter: Four Visits to Zimbabwe (memórias) (1992)
London Observed: Stories and Sketches (colectânea) (1993)
Conversations (intervistas editadas por Earl G. Ingersoll) (1994)
Autobiografia de Doris Lessing:
Under My Skin: Volume One of My Autobiography, to 1949 (1994)
Walking in the Shade: Volume Two of My Autobiography 1949 to 1962 (1997)
Spies I Have Known (colectânea) (1995)
Love, Again (1996)
The Pit (colectânea) (1996)
Mara and Dann (1999)
Ben, in the World (uma sequela da obra The Fifth Child)
ISBN 0-06-093465-4 (2000)
The Sweetest Dream
ISBN 0-06-093755-6 (2001)
The Grandmothers : Four Short Novels
ISBN 0-06-053010-3 (2003)
The Story of General Dann and Mara's Daughter, Griot and the Snow Dog (uma sequela da obra Mara and Dann) (2005)
The Cleft (2007), (tradução
portuguesa: A Fenda, Lisboa: Editorial Presença, 2008, ISBN.: 978-972-23-3938-4)
im:Wikipedia

Mittwoch, 22. April 2009

seitens der Städte,, POTSDAM: Voltaire

POTSDAM - Sanssouci
2008 Kino:G.Ludovice
Die Tafelrunde by Adolph von Menzel. Guests of Frederick the Great, in Marble Hall at Sanssouci, include members of the Prussian Academy of Sciences and Voltaire (seated, third from left).

Voltaire foi mentor literário do Imperador Frederico em Potsdam.
François-Marie Arount (1694-1778).

O mais importante nome da literatura clássica francesa, Voltaire representou para a palavra escrita o que Leonardo da Vinci significou para a arte e engenharia. Ele tanto escreveu ficção como não-ficção num estilo espirituoso, porém polido, e também foi respeitado como filósofo e cientista, além de ensinar literatura para Frederico, o Grande.

Amor Comparado
Queres ter uma ideia do amor, vê os pardais do teu jardim; vê os teus pombos; contempla o touro que se leva à tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem à égua em paz que o espera, e que desvia a cauda para recebê-lo; vê como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, camabalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsões, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para o objecto que a natureza lhe destinou; mas não tenhas inveja, e pensa nas vantagens da espécie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, força, beleza, ligeireza, rapidez. Há até mesmo animais que não sabem o que é o gozo. Os peixes escamados são privados dessa doçura: a fêmea lança no lodo milhões de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que fêmea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam só têm prazer por um sentido; e, assim que esse apetite é satisfeito, tudo se extingue. Nenhum animal, com excepção de ti, conhece os entrelaçamentos; todo o teu corpo é sensível; os teus lábios, sobretudo, gozam de uma volúpia que nada cansa, e esse prazer só pertence à tua espécie; enfim, tu podes a qualquer tempo entregares-te ao amor, os animais têm o seu tempo específico. (...) Por isso, estás acima dos animais; mas, se gozas de tantos prazeres que eles ignoram, em compensação quantas tristezas os animais não fazem ideia!
Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'



Nascido em Paris, numa respeitável família de classe média, Voltaire também escreveu e leu muita poesia. Suas sátiras deliciavam as pessoas, mas irritavam quem pertencia aos círculos acadêmicos oficiais. Para escapar à hostilidade dos franceses, em 1726 ele viajou para a Inglaterra, onde se tornou amigo, c também recebeu muita influência, do poeta Alexander Pope (1688-1744) e do poeta satirista Jonathan Swift (1667-1745) e do filósofo John Locke (1632-1704). Adquiriu influência na língua inglesa e, quando retornou a Paris. em 1729, apresentou aos franceses as obras de William Shakespeare. Nessa época, sua carreira literária começou a prosperar e suas obras de ficção, como A Henríada (1730) e Zaíra (1732), tornaram-se populares. Já as satíricas Cartas Filosóficas (1734) atraíram a ira dos acadêmicos que ele havia atacado.
Os Grandes Homens
Daqueles que comandaram batalhões e esquadrões só resta o nome. O género humano nada tem para mostrar duma centena de batalhas travadas. Mas os grandes homens de que vos falo prepararam puros e perenes prazeres para os homens que ainda hão-de nascer. Uma eclusa a ligar dois mares, um quadro de Poussin, uma bela tragédia, uma nova verdade - são coisas mil vezes mais preciosas do que todos os anais da corte ou todos os relatos de campanhas militares. Sabeis que, comigo, os grandes homens são os primeiros e os heróis os últimos. Chamo «grandes homens» a todos aqueles que se distinguiram na criação daquilo que é útil ou agradável. Os saqueadores de províncias são meros heróis.
Voltaire, in 'A Era de Luís XIV'


Entre 1734 e 1749 Voltaire viajou por toda Europa, mas passou boa parte do tempo com Émilie du Chatêlet (1706-1749), matemática e cientista newtoniana, num laboratório que haviam construído em Cirey. Em 1738, seu Elementos da Filosofia de Newton foi publicado na Holanda, onde ele se tornou amigo de Frederico, o Grande. Depois da morte de madame du Chatêlet, Voltaire aceitou o convite de Frederico para ir à sua corte em Potsdam, onde se tornou mentor literário do imperador. Mas, depois, os dois homens romperam um com o outro e Voltaire mudou para Les Delices, sua residência próxima a Genebra. Foi lá que ele escreveu Cândido (1759), sua maior obra de ficção, e muitas outras obras históricas e filosóficas, entre elas o Dicionário Filosófico (1764).

O Bem Supremo
Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. O que é o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar o que é o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc. Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. (...) Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de nos polarizar toda a sensibilidade, assim como mal supremo é aquele que vos torna completamente insensível. Eis os dois pólos da natureza humana. Esses dois momentos são curtos. Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal são quimeras.Conhecemos a bela fábula de Crântor, que fez comparecer aos jogos olímpicos a Fortuna, a Volúpia, a Saúde e a Virtude.
Fortuna: - O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Volúpia: - Meu é o pomo, porquanto não se aspira à riqueza senão para ter-me a mim.
Saúde: - Sem mim não há volúpia e a riqueza seria inútil.
Virtude: - Acima da riqueza, da volúpia e da saúde estou eu, que embora com ouro, prazeres e saúde pode haver infelicidade, se não há virtude. Teve o pomo a Virtude. A fábula é engenhosa, mas não resolve o problema absurdo do supremo bem. Virtude não é bem, senão dever. Pertence a um plano superior. Nada tem que ver com as sensações dolorosas ou agradáveis. Com cálculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necessário, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso é infelicíssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante no seu leito de púrpura, felicíssimo. Podeis dizer ser preferível o sábio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar o outro. Mas esquece-vos que le sage dans les fers enrage. Se não concordar o sábio, engana-vos: é um charlatão.
Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'


A Subjectividade do Amor-Próprio
Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte: - O senhor não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia trabalhar? - Senhor, - respondeu o pedinte - estou-lhe a pedir dinheiro e não conselhos. - E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas. Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo não suportava reprimendas. Viajando pela Índia, topou um missionário com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patrícios hindus, que lhe davam algumas moedas do país. - Que renúncia de si próprio! - dizia um dos espectadores. - Renúncia de mim próprio? - retorquiu o faquir. - Ficai sabendo que não me deixo açoitar neste mundo senão para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro. Tiveram pois plena razão os que disseram ser o amor de nós mesmos a base de todos as nossas acções - na Índia, na Espanha como em toda a terra habitável. Supérfluo é provar aos homens que têm rosto. Supérfluo também seria demonstrar-lhes possuírem amor próprio. O amor-próprio é o instrumento da nossa conservação. Assemelha-se ao instrumento da perpetuação da espécie. Necessitamo-lo. É-nos caro. Deleita-nos - E cumpre ocultá-lo.
Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'

Quando retornou a Paris em 1778, ele participou de tantas celebrações e homenagens que chegou à exaustão, factor que pode ter contribuído para sua morte. Escritor muito popular em sua época, ele é lembrado como o primeiro grande historiador francês, além do mais respeitado escritor de sua língua.



Da Liberdade
A: Eis uma bateria de canhões que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a não ouvir? B: É claro que não posso evitar ouvi-la. A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco? B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível. A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui. B: Isso é evidente. A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos? B: Nada mais verdadeiro. A: E se fôsseis paralítico? Não teríeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; não teríeis o poder de estar onde agora estais: teríeis então necessariamente ouvido e recebido um tiro de canhão e necessariamente estaríeis morto? B: Nada mais claro. A: Em que consiste, pois, a vossa liberdade, se não está no poder exercido pelo vosso indivíduo de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade? B: Embaraçais-me; então a liberdade é apenas o poder de fazer o que bem entendo? A: Reflecti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa. B: Neste caso o meu cão de caça é tão livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando vê uma lebre e o poder de correr se não estiver doente das pernas. Eu nada tenho, pois, mais do que meu cão: reduzis-me ao estado das bestas. A: Eis uma série de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instruíram. Eis que estais despeitado por não serdes livre como o vosso cão. Ora, não vos pareceis com ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, não são em vós como nele? Pretenderíeis cheirar com outro qualquer órgão além do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem? B: Porém eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu cão não pensa em coisa alguma. Ele apenas tem idéias simples, enquanto eu tenho mil idéias metafísicas. A: Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto é, tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; porém a vossa liberdade é perfeitamente igual à dele.
B: Como? Eu não tenho a liberdade de querer o que desejo? A: Que entendeis com isso? B: O que toda gente entende. Não se diz diariamente: "As vontades são livres"? A: Um provérbio não é uma razão; explicai-vos melhor. B: Penso que sou livre de querer como melhor me agradar. A: Com vossa licença, isso não tem o mínimo sentido; não percebeis que é ridículo dizer: "Eu quero querer"? Necessariamente, vós desejais em consequência das idéias que se vos apresentam. Quereis casar, sim ou não? B: Mas e se eu vos disser que não quero nem uma nem outra coisa? A: Responderíeis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino está morto; outros, que está vivo; eu não creio nem numa coisa nem noutra". B: Pois bem, quero casar-me. A: Isto é responder! Por que quereis casar? B: Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua família. A: Eis uma razão. Vedes, pois, que não podeis querer sem razão. Declaro-vos que tendes a liberdade de vos casar: isto é, que tendes o poder de assinar o contrato. B: Como! Eu não posso querer sem motivo? Que sucede então a este outro provérbio: Sit pro ratione voluntas: a minha vontade é a minha razão, eu quero porque quero? A: Isso é absurdo, meu caro amigo, pois haveria em vós um efeito sem causa. B: Que? Quando jogo par ou ímpar tenho então um motivo para escolher par em vez de ímpar? A: Sim, sem nenhuma dúvida. B: E qual é essa razão, por obséquio? A: É que a ideia de par se apresentou ao vosso espírito mais do que a ideia oposta. Seria muito cómico que nalguns casos desejásseis por existir uma razão para o vosso desejo e que noutros desejásseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a razão dominante, evidentemente; não a sentis quando jogais par ou ímpar, e contudo é mister que exista uma. B: Mas, uma vez ainda: sou ou não sou livre? A: A vossa vontade não é livre mas as vossas ações o são. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer. B: Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferença... A: São tolices: não existe liberdade de indiferença; é um termo destituído de senso, inventado por pessoas que o não possuem.
Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'

A Dependência é a Raiz de Todos os Males
O que deve um cão a um cão, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo porém o homem recebido o raio da Divindade a que se chama razão, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto é, se em toda parte os homens encontrassem subsistência fácil e certa e clima apropriado à sua natureza, impossível teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. Não fosse veículo de doenças e morte o ar que contribui para a existência humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito além do dos gansos e cabras monteses, não teriam os Gengis Cãs e Tamerlões vassalos senão os próprios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxiliá-los na velhice. No estado natural de que gozam os quadrúpedes, aves e répteis, tão feliz como eles seria o homem, e a dominação, quimera, absurdo em que ninguém pensaria: para quê servidores se não tivésseis necessidade de nenhum serviço? Ainda que passasse pelo espírito de algum indivíduo de bofes tirânicos e braços impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele, a coisa seria impossível: antes que o opressor tivesse tomado as suas medidas o oprimido estaria a cem léguas de distância. Todos os homens seriam necessariamente iguais, se não tivessem necessidades. A miséria que avassala a nossa espécie subordina o homem ao homem - o verdadeiro mal não é a desigualdade: é a dependência.
Pouco importa chamar-se tal homem Sua Alteza, tal outro Sua Santidade. Duro porém é um servir o outro. Uma família numerosa cultivou um bom terreno. Duas famílias vizinhas têm campos ingratos e rebeldes: impõe-se-lhes servir ou eliminar a família opulenta. Uma das duas famílias indigentes vai oferecer os seus braços à rica para ter pão. A outra vai atacá-la e é derrotada. A família servente é fonte de criados e operários. A família subjugada é fonte de escravos. Impossível, neste mundo miserável, que a sociedade humana não seja dividida em duas classes, uma de opressores, outra de oprimidos. Essas duas classes subdividem-se em mil outras, essas outras num sem número de cambiantes diferentes. Nem todos os oprimidos são absolutamente desgraçados. A maior parte nasce nesse estado, e o trabalho contínuo impede-os de sentir toda a miséria da sua própria situação. Quando a sentem, porém, são guerras, como a do partido popular contra o partido do senado em Roma, as dos camponeses na Alemanha, Inglaterra, França. Mais cedo ou mais tarde todas essas guerras terminam com a submissão do povo, porque os poderosos têm dinheiro e o dinheiro tudo pode no Estado. Digo no Estado, porque o mesmo não se dá de nação para nação. A nação que melhor se servir do ferro sempre subjugará a que, embora mais rica, tiver menos coragem. Todo o homem nasce com forte inclinação para o domínio, a riqueza, os prazeres e sobretudo para a indolência. Todo o homem portanto quereria estar de posse do dinheiro e das mulheres ou das filhas dos outros, ser-lhes senhor, sujeitá-los a todos os seus caprichos e nada fazer ou pelo menos só fazer coisas muito agradáveis. Vedes que com estas excelentes disposições é tão difícil aos homens ser iguais quanto a dois pregadores ou professores de teologia não se invejarem. Tal como é, é impossível o género humano subsistir, a menos que haja uma infinidade de homens úteis que nada possuam. Porque, claro é que um homem satisfeito não deixará a sua terra para vir lavrar a vossa. E se tiverdes necessidade de um par de sapatos, não será um referendário que vo-lo fará. Igualdade é pois a coisa mais natural e ao mesmo tempo a mais quimérica. Como se excedem em tudo que deles dependa, os homens exageraram essa desigualdade. Pretendeu-se em muitos países proibir aos cidadãos sair do lugar em que a ventura os fizera nascer. O sentido dessa lei é visivelmente: este pais é tão mau e tão mal governado que vedamos a todo o indivíduo dele sair, por temor que todos o desertem. Fazei melhor: infundi em todos os vossos súbditos o desejo de permanecer no vosso Estado, e aos estrangeiros o desejo de para aí vir. Nos íntimos refolhos do coração todo o homem tem o direito de crer-se de todo o ponto de vista igual aos outros homens. Daí não segue dever o cozinheiro de um cardeal ordenar ao seu senhor que lhe faça o jantar; pode todavia dizer: "Sou tão homem como o meu amo; nasci como ele a chorar; como eu ele morrerá nas mesmas angústias e com as mesmas cerimónias. Temos ambos as mesmas funções animais. Se os turcos se apoderarem de Roma e eu me tornar cardeal e o meu senhor cozinheiro, tomá-lo-ei a meu serviço". Tudo isso é razoável e justo. Mas, enquanto o grão turco não se assenhorear de Roma, o cozinheiro precisa de cumprir as suas obrigações, ou toda a humanidade se perverteria. Um homem que não seja cozinheiro de cardeal nem ocupe nenhum cargo no Estado; um particular que nada tenha de seu mas a quem repugne o ser em toda a parte recebido com ar de proteção ou desprezo; um homem que veja que muitos monsignori não têm mais ciência, nem mais espírito, nem mais virtude que ele, e que se enfade de esperar nas suas antecâmaras, que partido deve tomar? O da morte.
Voltaire, in 'Dicionário Filosófico'

Referências bibliográficas
YENNE, Bill. 100 homens que mudaram a história do mundo. São Paulo, Ediouro, 2002.
Fonte: www.meusestudos.com