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Mittwoch, 26. September 2012

Wortes uber Stadte: Berlin

"..Berlín es la metrópolis más musical del mundo. Es una de las principales razones de por qué vivo aquí desde hace ocho años. Cuando residía aún en Budapest, tenía que llevarme la radio al baño continuamente para poder escuchar música ya que era el único lugar donde la señal era buena. Aquí hay tres casas de la ópera a dónde puedo ir cuando me apetece, sin hablar de las maravillosas filarmónicas. Para un amante de la música esto es el paraiso. Y la atmósfera de la ciudad es agradable, urbana. Sobre todo aquí, en Charlottenburg. Es tan agradable ver como pasea la gente por la calle, como se sientan en las terrazas de las cafeterías. Leen, comen, beben e incluso flirtean. Berlín en verano es como un centro de descanso sin igual, ¿qué más podría decir?, como una sauna relajante. Todos hacen lo que quieren e incluso de la manera más natural del mundo. No hay estrés, no hay violencia. La gente es amistosa unos con otros, y también lo son conmigo. Esa es mi experiencia, desde el primer minuto que he pasado aquí hasta hoy."
Imre Kertész
in: http://apostillasnotas.blogspot.com.es/search/label/Escritores%20austro%2Fh%C3%BAngaros

Donnerstag, 12. Januar 2012

Wortes uber Stadte

«Em outubro de 1980 viajei de Inglaterra, onde, vivia, então, havia quase 25 anos, numa região que estava quase sempre ensombrada por um céu cinzento, rumo a Viena, com a esperança de que uma mudança de lugar me ajudasse a superar uma etapa da minha vida particularmente difícil. Porém, em Viena descobri que os dias se tornavam demasiados compridos, agora que não eram ocupados pela minha rotina de escrever e tratar do jardim, e literalmente não sabia onde ir. Saía cedo todas as manhãs e caminhava sem rumo nem objectivo pelas ruas da cidade antiga…».

Em Vertigem (1990)
W.G.Sebald

Mittwoch, 5. Mai 2010

Dienstag, 20. April 2010

Sonntag, 23. August 2009

seitens der Städte, Wortes uber Stadte,

Lisboa
Esta névoa sobre a cidade, o rio, as gaivotas doutros dias, barcos, gente apressada ou com o tempo todo para perder, esta névoa onde comeca a luz de Lisboa, rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água, nada mais quero de degrau em degrau.

EUGÉNIO DE ANDRADE

Donnerstag, 23. Juli 2009

Wortes uber Stadte

Mãe vem ouvir Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado! Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros in A Invenção do dia claro

Um mimo às mães e aos filhos

Freitag, 17. Juli 2009

Wortes uber Stadte

O Cerco à Cidade de Cremna

Na época dos imperadores Aureliano, Tácito e Probo, nas províncias de Isáuria, Pisidia e Lícia, na Ásia Menor, famosas há séculos como esconderijos de salteadores, vivia um certo Lidio, que era de todos o mais famigerado e temido.
Era natural de Isáuria c nascera no tempo de Felipe, o Árabe. Todos os seus antepassados tinham sido também salteadores. Seu pai perdera a vida durante uma pilhagem na Licia, seu avô e dois tios morreram enforcados à mesma época. Desconhece-se seu nome de batismo; desde os vinte anos que era chamado de Lidio e com este nome ficaria famoso por aquelas paragens. Lidio era, por natureza, inteligente, astuto e corajoso mas ponderado em seus empreendimentos. Sabia tirar partido das pessoas c servir-se do amor ou medo que nelas despertava para conseguir seus intentos.
Assim foi ascendendo, de triunfo cm triunfo, e ainda jovem já conhecia o sabor da fama e do poder, sem que por isso os anos lhe trouxessem cansaço ou tédio. Só depois de ter completado trinta anos, o êxito fácil e contínuo das arriscadas façanhas o convenceram, movido por sentimentos de júbilo e êxtase, de sua invencibilidade. Assim foi que decidiu exceder os limites estabelecidos pelas leis divinas para, afinal, sofrer uma queda brusca e fatal.
Durante sua passagem e de seu numeroso bando pela Cilícia, juntou-se-lhes um grego jônico, de nome Hefaisto, que até então estivera a serviço de piratas cilicinos mas preferira alistar-se agora no famigerado bando de Lídio. Dai em diante, suas façanhas foram cada vez mais retumbantes, pois esse Hefaisto era homem hábil e astucioso, fértil em ardis, planos e maquinações. Dominava bem cinco idiomas, sabia desenhar mapas e entendia de espionagem, conhecia a estratégia militar e a arte de sitiar mas distinguia-se, sobretudo, como atirador exímio e construtor de engenhos bélicos. Inventara e construirá catapultas, com a ajuda das quais era capaz de alvejar, com impressionante precisão, quer usasse flechas, quer arremessasse pedras, o inimigo previamente visado. No combate à distância, sabia como aproveitar qualquer terreno e, durante os cercos, dirigia pessoalmente a edificação de paliçadas, a abertura das trincheiras e a escavação de minas. Lídio apercebia-se claramente do valor desse homem.
Tratava-o com afabilidade, concedia-lhe o direito de arrecadar o dobro da presa dos demais homens e honrava-o com o posto de comando imediatamente inferior ao dele. No começo, observara-o com certo receio e inveja, pois temia que esse grego de mil talentos se convertesse num perigo.so rival, capaz de derrubá-lo mais dia menos dia. Mas depressa concluiu que Hefaisto o superava, certamente, em muitos talentos e ardis, porém não tinha nascido para governar. E, de fato, o grego não teria servido — apesar de sua inteligência — para liderar aqueles homens. Faltava-lhe, para tanto, o olhar dominante, os gestos imperiosos e violentos, a intrepidez pessoal, ,sem o que nenhum homem pode manter o controle de qualquer grupo, por menor que seja, impondo-lhe obediência e fidelidade submissa. Lídio viu seus temores dissiparem-se e o grego, por seu turno, contentava-se em ser o conselheiro dileto e o chefe imediato de Lídio, em vez de aspirar ao supremo comando.
Por algum tempo esse bando de centenas de homens mantevese operando na pequena província de Pisídia e em parte da Panfília. Os camponeses eram despojados de seus rebanhos, trigo, frutas e vinho; as cidades e os comerciantes perdiam dinheiro, mercadoria e equipamentos, c ninguém se atrevia a opor resistência ao poderoso cabccilha. Anpustiosos pedidos de socorro e reclamações desesperadas eram dirigidos ao governador da província, ao imperador e ao Senado, em Roma; a toda hora eram despachadas centúrias romanas ao encontro dos salteadores, mas estas ou sofriam derrotas fragorosas, ou tinham de regressar sem pôr a vista no bando, que era exímio na arte de sumir na intransitável e acidentada cordilheira de Tauro. Lídio, possuído de uma vaidade ofuscante por tantos êxitos obtidos, já dava a entender que, em caso de necessidade, poderia até defrontar o Império, cujo poderio se revelara tão fraco em todos os recontros com a sua gente. Passou então a provocar as autoridades, não poupando funcionários e soldados, e anunciando ocasionalmente que pretendia disputar ao imperador a posse daquelas províncias, tornando-as propriedades suas. Na realidade, não faltava muito para isso, pois Lídio incendiava e saqueava impunemente povoados, aldeias e vilas inteiras, apoderando-se do que queria a seu bel-prazer, e não só dispunha de centenas de combatentes bem adestrados e intrépidos mas, além disso, tinha por toda a parte espiões, olheiros, receptadores e aliados secretos.
Entrementes, em Roma, o valente e justiceiro Imperador Probo sucedera a um governo fraco e pusilânime. As queixas e pedidos de socorro que chegavam insistentemente daquelas mal-afamadas paragens da Ásia Menor obrigaram o novo imperador a promulgar severos editos e a enviar aos governadores das províncias flageladas pelo bando de Lídio instruções rigorosas para que desencadeassem uma verdadeira guerra contra os salteadores.
Lídio logo que teve conhecimento dessas determinações de Roma exultou, pois lhe pareceu que chegara a hora de mostrar seu poderio e de zombar abertamente do Império. Como começasse a ser acossado e molestado por sucessivas patrulhas de centúrias romanas, decidiu, obstinado, possuído de grande fúria, arriscar tudo num ato de inaudita violência que servisse de lição a seus inimigos. Edificada nas culminâncias rochosas e alcantiladas de uma das montanhas de Tauro, na província de Pisídia, erguia-se a cidade de Cremna, tida como inexpugnável por natureza e engenho humano. Fora construída de modo que três dos seus lados estavam protegidos por um abismo profundo e inacessível, e o quarto lado era protegido por uma formidável muralha. Foi essa cidade que Lídio resolveu conquistar e daí desafiar o mundo inteiro. Consultou Hefaísto e alguns de seus companheiros diletos, que aprovaram o audacioso plano, logo posto em prática na semana seguinte.
Numa manhã do mês de abril, apareceram nas portas da cidade de Cremna dez homens que, sem serem vistos, tinham subido a única e Íngreme estrada que conduzia até ela. Silenciosamente tomaram de surpresa as portas, sem encontrar oposição séria dos guardas, e hastearam uma bandeira vermelha, deixando as sentinelas fugirem apavoradas enquanto eles riam com gosto. Já nessa altura o bando de Lídio vinha escalando a íngreme estrada.
O cabecilha, um homem moreno e bonito, de rasgados olhos pretos e maldosos, vinha na frente, montado numa mula. Não falava e limitava-se a acenar aos seus homens — que caminhavam cantando e folgando — para que se calassem e não abandonassem a ordem de marcha. Atento, vigiava todos os detalhes do percurso e a disposição da cidade alcandorada, como um ninho de águias, nos imensos penedos à sua frente. Lídio sabia que estava cavalgando ao encontro de sua maior aventura e que daquelas muralhas ele só poderia sair de novo coroado ou morto. Observava, pensativo, as ameias audaciosamente debruçadas sobre o abismo, talvez pressentindo, no íntimo do coração, uma guinada decisiva em sua estrela, mas, como sempre, frio e firme, pois o temor era-lhe desconhecido. E, intimamente, emocionava-o pensar que, daí a pouco, o aventureiro sem pátria entraria triunfalmente como senhor numa cidade romana fortificada.
A tropa seguia-o a pé, em razoável formação. Eram mais ou menos cem homens de armas, escolhidos entre os melhores de seu bando. Depois deles, vinham as carroças com mantimentos e, finalmente, uma manada de gado roubado. O cortejo era fechado por Hefaísto, montado num pequeno cavalo pigarço; além do chefe, era o único homem que cavalgava; de baixa estatura, poucas falas e um rosto aparentemente vulgar e inofensivo, só os olhos vivos e as rugas finas denunciavam um homem capaz de mil astúcias. A entrada realizou-se em silêncio e boa ordem. Os cidadãos entreolhavam-se, surpresos e preocupados, ninguém pensando em opor-se aos salteadores. Os vadios, que passavam os dias acocorados à sombra do lado oeste da rua, dirigiram gracejos aos homens de Lídio, que lhes retorquiam na mesma moeda.
De uma pequena casa, em cujo térreo um entalhador tinha sua oficina, saiu, quando o bando acabara de desfilar, uma jovem alta e bela que levava uma ânfora ao ombro. Hefaísto, que cavalgava por último, notou o olhar surpreendido da formosa donzela, que logo lhe agradou muito, e dirigiu-lhe uma vênia cortês, acompanhada de um sorriso tranqüilizador, a que juntou os versos finais de um antigo madrigal jônico. Lídio, entrementes, assumia a administração da cidade e fazia anunciar, por meio de arautos, que era o novo senhor de Cremna. Como seus homens respeitassem a disciplina e não pusessem em perigo a vida, bens ou liberdade dos habitantes, ninguém pôs objeções aos conquistadores. Comentava-se que ele era o famoso Lídio e muitos se alegraram de poder ver com os próprios olhos esse temido e estranho herói. Lídio mostrava-se indiferente a tudo, providenciava alojamentos para seus homens com os cidadãos mais prestimosos, cuidava da defesa, distribuía guardas pelos postos e recolhia-se a seus aposentos.
A cidade tornara-se alegre e ruidosa; à maioria dos soldados era concedida hospitalidade, de boa vontade, e pelas ruas só se ouviam cantos, gargalhadas e danças. Hefaísto, porém, alojara-se na casa daquele entalhador, logrando a simpatia dessa humilde família com algumas moedas de prata. Fechado o trato, dirigiu-se animadamente e sem pressa ao encontro de seu chefe, passando a tarde sozinho com ele a discutir planos e estudar deliberações. À noite, ofereceu vinho aos anfitriões, tocou lira e entoou canções alegres, falou de outros países por onde andara e teve, sentada a seus pés, a moça esbelta de olhos castanhos, cuja cabeça repousava em seu colo, enquanto ele corria os dedos pela sua longa e sedosa cabeleira. Seu nome era Febe, e recusou-se a acompanhá-lo à alcova mas prometeu que o faria no dia seguinte, com o que Hefaísto se conformou. No dia seguinte, Lídio recebeu a noticia de que uma legião romana fora mobilizada e se aproximava de Cremna, como ele já esperava. Dirigiu-se à praça do mercado da cidade e, tendo mandado reunir sua gente, ali fez com que toda a tropa lhe prestasse juramento de fidelidade até à morte.
Imediatamente começaram os preparativos da cidade apavorada para sustentar o cerco. Duzentos cidadãos com suas famílias abandonaram nesse mesmo dia a cidade, sendo-lhes permitido levarem tudo que fosse transportável mas nada de mantimentos. Em todas as casas se ouviam lamentações mas ninguém se atrevia a contrariar abertamente as decisões de Lídio. De noite, todos os descontentes tinham abandonado a cidade e ainda no dia seguinte foram expulsas muitas centenas de pessoas, enquanto outras debandavam, tomadas de pavor. Uma semana mais tarde surgiu na extensa planície o exército romano e, no mesmo dia em que as primeiras colunas foram divisadas, regressaram a Cremna alguns cidadãos que Lídio mandara expulsar, acompanhados de um emissário do governador da província, intimando o salteador a abandonar a cidade. Silenciosamente, os cidadãos puderam franquear as portas, escoltados por homens de Lídio, mas o emissário romano ficou sem resposta.
No dia seguinte, Cremna estava cercada por numeroso exército e o sítio foi proclamado. Lídio mostrava uma expressão animada, seu plano fora meticulosamente elaborado e ele estava decidido a afundar junto com a cidade inteira antes de ceder um palmo ao sitiante. Começou por condenar os desterrados que tinham regressado na véspera com o emissário de Roma a serem lançados do mais alto e mais visível rochedo para exemplo geral. Ameaças e maldições ecoavam pelo abismo; alguns dos condenados choravam e defendiam-se com bravura, antes de serem empurrados para o precipício, outros pulavam voluntariamente. Na cidade, espalharase um terror silencioso.
Todo mundo se apercebia das providências desesperadas que estavam sendo tomadas e não poucos passaram a temer pela vida. Quem podia planejava fugir da cidade, agora clandestinamente; os que ficavam recolhiam-se em casa, amedrontados, ou procuravam refúgio em porões e outros esconderijos, Lídio decretou que daquele dia em diante não haveria mais propriedades particulares e mandou confiscar todos os víveres e mantimentos. Ele próprio saia à rua para distribuir ordens, louvar ou repreender quem, em sua opinião, merecia uma ou outra coisa. A guarnição foi encarregada de executar trabalhos pesados. Para aumentar as reservas de mantimentos, Lídio mandou derrubar numerosas casas a fim de lavrar a terra e semear cereais. Os poucos habitantes que continuavam residindo na cidade, apenas um terço da antiga população, em breve se viram reduzidos à extrema penúria. Pois todo o gado, as provisões de trigo, farinha, frutas, vinho e outros mantimentos foram recolhidos por L í dio e guardados em entrepostos.
Era distribuída uma ração diária de carne, pão e vinho, com imparcialidade, sem atender a considerações pessoais, mas só aos que participavam nas construções da defesa e nos trabalhos do campo. Os outros ficavam à mercê da fome e da compaixão dos salteadores, que só se manifestava, geralmente, em proveito das mulheres. Hefaísto acobertara a fuga de seu anfitrião, o entalhador, e sua mulher, tendo-lhes dado algum dinheiro para a viagem, mas conservara a filha com ele. Viviam agora juntos e a bela moça aceitara ser sua serva e amante. Hefaisto, porém, não abandonava os seus afazeres por ela e era visto intensamente ocupado em desenhar mapas, observar os dispositivos inimigos e maquinar planos. Por vezes, quando alguns romanos se aventuravam a chegar perto demais, Hefaisto assestava neles seus terríveis canhões e destruia-os com tiros certeiros.
Do lado dos sitiantes, só ocasionalmente alguns tiros de flecha e pedradas logravam chegar à cidade. Mas também era verdade que pouco se esforçavam, pois estavam decididos a deixar os sitiados morrerem de fome. Por isso, Lídio, com a ajuda do expedito Hefaisto, tudo fazia para evitar uma futura escassez de víveres. Mandaram salgar e defumar carne, o grão de trigo e a farinha continuavam rigorosamente guardados, qualquer leira de terra era lavrada e semeada sem perda de tempo e, finalmente, Hefaisto teve a idéia de construir uma galeria subterrânea que l i gasse a cidade aos campos adjacentes. Lídio imediatamente mandou pôr mãos à obra. As cavernas naturais e as fendas rochosas facilitavam o ousado intento e em poucos meses estava concluída a passagem. Entrementes, a população ficara substancialmente reduzida. Antes de iniciado o trabalho de abertura da galeria, Lídio mandara que o portão da cidade ficasse aberto por um dia e uma multidão de bocas desnecessárias abandonara a cidade.
Desde então, ninguém mais pôde sair, para que a passagem secreta não fosse descoberta pelo inimigo. E quem se recusasse a executar trabalhos pesados, queixando-se de fome, era atirado incontinenti para o fundo do abismo, onde abutres e lobos tinham lautas refeições. A galeria subterrânea, construída sob a direção de Hefaisto, terminava num pequeno vale, cortado por um riacho, bem na retaguarda do acampamento romano. No dia em que ela pôde ser u t i l i zada pela primeira vez, Lídio abraçou em público o grego e presenteou-o com um magnífico colar de ouro. Começava agora na cidade sitiada uma nova fase de existência alegre e confiante.
Pela galeria, a cada quatro ou cinco dias, eram trazidas grandes quantidades de gado roubado ou comprado, trigo, pão, caça e muitas outras provisões. Tampouco faltavam os tonéis de vinho, e os sitiados, descansando dos pesados trabalhos do subterrâneo, recebiam rações dobradas. Ouviam-se flautas, cantos alegres, a algazarra dos jogadores de dados. As moças da cidade eram obrigadas a sair de casa para dançar nas ruas e Lídio, em pessoa, participava das orgias que tinham lugar na praça do mercado, apresentando-se com a cabeça engrinaldada de louros. Assim foi até o verão; e os romanos continuavam acampados, exaustos e mal-humorados, à vista da alegre cidade dos salteadores. Galgando caminhos arriscados, tentaram algumas vezes tomar de assalto a cidade, em ataques noturnos. Mas Lídio vigiava dia e noite.
Quando alguma cabeça inimiga surgia nas ameias denteadas ou se ouviam passos furtivos rondando as muralhas escuras, uma saraivada de flechas, pedras e outros projéteis descia na mesma hora sobre os intrusos. Aconteceu, porém, que numa noite estivai uma pobre camponesa pôs-se a procurar pelos campos a sua vaca, que se perdera. Num pequeno vale, cortado por um riacho, entre pedras e salgueiros, ela ia^ndando de um lado para outro, chamando por sua vaca quando, de súbito, escutou vozes de homens. Assustada, ocultou-se entre as pedras. De ouvido à escuta, viu estarrecida que os homens saíam do chão e desapareciam, subindo o vale na direção das colinas. Na esperança de receber uma boa recompensa, a mulher correu açodada ao acampamento e pediu para falar com um general romano. Contou.-lhe tudo o que vira e recebeu uma moeda de ouro com a efígie do antigo imperador. Depois, o general dirigiu-se corn seus homens ao local denunciado e preparou uma emboscada. Quando os salteadores regressavam com provisões, foram atacados de surpresa e todos eles aprisionados.
A entrada da galeria foi trancada e posta sob a guarda permanente dos centuriões. A partir desse dia, a existência despreocupada de Cremna ficou com seus dias contados. Acabou o vinho, as rações de farinha e carne foram reduzidas à metade. Lídio estava agora convencido de que a sua linica saída consistia em morrer invicto, de arma na mão. Lídio passava as noites em claro cogitando na maneira de manter a cidade em seu poder o maior tempo possível. Seu rosto andava sombrio como uma nuvem de tormenta.
De espada na mão, entrava nas casas e onde quer que encontrasse alguém que ele reputasse desnecessário ou i n ú t i l , matava-o a estocadas. Somente estavam a salvo de tais crueldades os homens necessários para a guarnição militar e algumas mulheres que os salteadores possuíam em comum. Hefaísto, que se sabia imprescindível e conservava bem escondida sua amante, era o único que conservava o bom humor e via, impassível, aproximar-se a tempestade. Os demais estavam tomados de pavor, pois sabiam ter a vida ameaçada e as rações diminuídas diariamenie, colocando-os nn terrível contingência de morrerem assassinados ou — ahernativa horrenda — de fome. Lídio deixara de dormir e, a qualquer hora do dia ou da noite, era visto sempre empunhando sua refulgente e sinistra espada.
Era capaz de ficar dias a fio enclausurado em sua casa, sobre a qual pesava um silêncio abafado e funéreo, até que, súbito, surgia como uma fera que rebentasse a jaula, e matava alguma sentinela solitária que julgasse inútil, empurrando-a precipício abaixo. Um grupo de seus homens decidiu eliminá-lo. Mas, perante seu olhar ardente e cruel, todos retrocediam acovardados.
E esses homens rudes pressentiam com horror que Lídio fora dominado pelo Demônio para cumprir um destino pavoroso. Hefaísto e alguns lugar-tenentes fiéis ajudavam-no a vigiar os depósitos e seguíam-no silenciosamente, de longe, quando o tresloucado Lídio fazia suas incursões homicidas, para eliminar, pelo seu próprio punho, mais um ou dois de seus homens. Começou correndo a lenda de que ele se alimentava do sangue de suas vítimas, bebendo-o enquanto fumava. Não tardou muito para que sua loucura o fizesse suspeitar também dos partidários mais eficientes e leais. Por isso, certa noite, decidiu rondar a casa onde vivia Hefaísto e escutou a conversa do grego com Febe.
No dia seguinte, chamou Hefaísto e disse: — Tens uma moça escondida em tua casa. Esta noite, ao escurecer, quero que a tragas aqui. Hefaísto ficou aterrorizado. Não estava disposto a entregar sua pombínha e como soubesse que tampouco poderia conservá-la, esperou que caísse a noite e quando a moça dormia transpassou-lhe o coração com um punhal, enrolou-a num tapete e ordenou que dois homens a levassem a Lídio. Dias depois, estava Hefaísto junto de sua catapulta na muralha da fortaleza, observando o inimigo, quando Lídio se acercou e, sorridente, disse: — Obrigado pela moça que me mandaste a outra noite. Era muito bonita. Já agora, poderias fazer-me um outro favor. Assesta a tua catapulta na direção daquele guarda que está no torreão superior e mata-o. Não preciso mais dele. O grego, que sentia ainda o sangue da sua amada queimandoIhe as mãos, olhou fixamente para Lidio e replicou: — Atira tu mesmo. Eu não tenho flechas para os meus próprios companheiros!

Lídio, enfurecido, chamou três homens que o escoltavam, submissos como cães de fila, e ordenou-lhes que despissem Hefaisto e o açoitassem. E afastou-se, não se preocupando mais com ele. O grego sabia bem que tinha sua vida por um fio. Refugiou-se numa cisterna, esperando pela noite. Com um lençol esticado e duas varas, armou uma espécie de pára-quedas e, subindo à muralha, lançou-se sobre o abismo. Conseguiu pousar sem maiores danos na planície e dirigiu-se, cambaleante, ao acampamento romano. Deixou-se levar à presença do general e solicitou clemência, prometendo que, em troca, faria Lidio cair. E cumpriu a promessa poucos dias depois. Com a ajuda de alguns engenheiros romanos, Hefaisto construiu uma catapulta com a qual poderia arremessar projéteis por cima das muralhas de Cremna. Ora, conhecendo bem o lugar onde Lidio costumava postar-se, nas ameias da fortaleza, observando o inimigo, Hefaisto assestou a catapulta e armou-a com umá grande lança. No momento em que achou mais provável que Lídio lá estivesse, disparou a flecha.
Com isso terminou o sítio de Cremna. A flechada perfurou um olho de Lídio e feriu-o mortalmente. Mas era tanta sua energia que ainda conseguiu sobreviver um dia inteiro, matando mais dois de seus homens. Quando sentiu, por fim, que a morte inevitável se avizinhava, quis que seus homens jurassem não entregar a cidade, após sua morte, defendendo-a até à última gota de sangue. Mas quando o viram morto, quando seu temido olhar se apagou no rosto moreno, o bando como que despertou de um misterioso sortilégio, cuspiu no cadáver, insultou-o, profanou-o. E foi entregar-se ao desdéni e à mercê dos sitiantes.
Hermann Hesse

Freitag, 10. Juli 2009

Wortes uber Stadte

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui não sou felizLá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tiveE como farei ginástica
Andarei de bicicletaMontarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água.
Pra me contar histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira

Dienstag, 30. Juni 2009

Wortes uber Stadte

Londres

Vagueio por estas ruas violadas,
Do violado Tamisa ao derredor,
E noto em todas as faces encontradas
Sinais de fraqueza e sinais de dor.
Em toda a revolta do Homem que chora,
Na Criança que grita o pavor que sente,
Em todas as vozes na proibição da hora,
Escuto o som das algemas da mente.
Dos Limpa-chaminés o choro triste
As negras Igrejas atormenta;
E do pobre Soldado o suspiro que persiste
Escorre em sangue p'los Palácios que sustenta.
Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais
É da jovem Prostituta o seu fadário,
Maldiz do tenro Filho os tristes ais,
E do Matrimónio insulta o carro funerário.
William Blake, in "Canções da Experiência" Tradução de Hélio Osvaldo Alves

Donnerstag, 25. Juni 2009

Wortes uber Stadte

LONDRES

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel de luzes.
nem outro sobre a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado.
ou sobre o frio e o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar.
ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos frio.
ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar.
e era já o último.

manuel a. domingos in mapa

Samstag, 20. Juni 2009

Wortes uber Stadte

Os Pássaros de Londres

Os pássaros de Londres cantam todo o inverno como se o frio fosse o maior aconchego nos parques arrancados ao trânsito automóvel nas ruas da neve negra sob um céu sempre duro os pássaros de Londres falam de esplendor com que se ergue o estio e a lua se derrama por praças tão sem cor que parecem de pano em jardins germinando sob mantos de gelo como se gelo fora o linho mais bordado ou em casas como aquela onde Rimbaud comeu e dormiu e estendeu a vida desesperada estreita faixa amarela espécie de paralela entre o tudo e o nada os pássaros de Londres quando termina o dia e o sol consegue um pouco abraçar a cidade à luz razante e forte que dura dois minutos nas árvores que surgem subitamente imensas no ouro verde e negro que é sua densidade ou nos muros sem fim dos bairros deserdados onde não sabes não se vida rogo amor algum dia erguerão do pavimento cínzeo algum claro limite os pássaros de Londres cumprem o seu dever de cidadãos britânicos que nunca nunca viram os céus mediterrânicos Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

Wortes uber Stadte

Na Véspera de não Partir Nunca

Na véspera de não partir nunca Ao menos não há que arrumar malas Nem que fazer planos em papel, Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, Para o partir ainda livre do dia seguinte. Não há que fazer nada Na véspera de não partir nunca. Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros Por isto tudo, ter pensado o tudo É o ter chegado deliberadamente a nada. Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, Como uma oportunidade virada do avesso. Há quantas vezes vivo A vida vegetativa do pensamento! Todos os dias sine linea Sossego, sim, sossego... Grande tranqüilidade... Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! Dormita, alma, dormita! Aproveita, dormita! Dormita! É pouco o tempo que tens! Dormita! É a véspera de não partir nunca!
Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa

Dienstag, 9. Juni 2009

Montag, 8. Juni 2009

Wortes uber Stadte

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dá-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades, fazendo incessantemente ainda mais um circuito antes de enfim descansar no leito de que se aproxima.
Mas viajar não torna ninguém melhor de carácter nem mais são de espírito. Teremos de nos aplicar ao estudo, de frequentar os mestres da filosofia, a fim de assimilarmos os princípios já estabelecidos e investigar o que ainda está por descobrir. Só assim a alma se pode arrancar à mais dura servidão e alcançar a verdadeira liberdade.
Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.As tuas deambulações não te trarão qualquer proveito, já que viajas na companhia das tuas paixões, seguido sempre pelos males que te dominam. E bom era que estes males apenas te seguissem! Bom era que eles estivessem longe de ti!
O que se passa, porém, é que os levas em cima, e não atrás de ti. Deste modo, onde quer que estejas, eles oprimem-te, destroem-te com a mesma virulência. Um doente precisa que se lhe indique um remédio, não um panorama. Se um homem parte uma perna ou faz uma entorse não vai pôr-se a passear de carro ou de barco: manda, sim, é chamar um médico que lhe ligue o membro partido ou ponha no seu lugar o osso deslocado.
Ora bem: acaso pensas tu que uma alma quebrada ou torcida em tantos lugares pode tratar-se com uma simples mudança de ambiente? Não, esta doença é demasiado grave para curar-se com um passeio! A formação de um médico ou de um orador não se faz em viagem; a aprendizagem de qualquer arte não depende da geografia. Como pensar que a sabedoria, a mais importante das artes, se pode adquirir saltando daqui para acolá?! Podes crer que nenhuma viagem te põe ao abrigo do desejo, da ira, do medo; se tal fosse o caso, todo o género humano começaria em massa a viajar. Estes males não cessarão de atormentar-te, de desgastar-te ao longo das tuas viagens, terrestres ou marítimas, enquanto tiveres em ti as suas causas.
Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges?
Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

Samstag, 6. Juni 2009

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Viagens
By José Saramago

Viemos de Lanzarote no último sábado, com escala em Sevilha, e depois por estrada até Lisboa. No domingo, como expliquei, fomos à Azinhaga por causa de estátua que lá foi posta. O plátano em frente da casa é um autêntico esplendor, uma gama de verdes riquíssima que atrai para uma demorada contemplação e me fez pensar: “Não mudes, deixa-te ser como és”. Inútil desejo, virá o Verão com os seus calores, o Outono com o primeiro frio, e as folhas cairão, o esplendor apaga-se, a árvore adormece até que a nova Primavera venha tomar o lugar desta que está terminando.
Estes pensamentos sem nenhuma originalidade fizeram-me recordar o último e breve capítulo da Viagem a Portugal que, ouso pensar, alguma originalidade haverá tido. E pensei que não ficaria mal trazê-lo aqui, quando estamos a ponto de partir outra vez, agora para a Corunha. Aí vai, portanto:
«A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim da viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.»
Assim é. Assim seja.
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Freitag, 5. Juni 2009

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Albert Camus "Com a morte na alma" (1)
Cheguei a Praga às seis da tarde. Levei de imediato a minha bagagem para o depósito. Tinha ainda duas horas para procurar hotel. E sentia-me cheio de um estranho sentimento de liberdade porque as minhas duas malas já não me pesavam nos braços. Sai da estação, caminhei ao longo de jardins e achei-me de súbito em plena avenida Wenceslau, fervente de pessoas àquela hora. À minha volta um milhão de seres que tinham vivido até então e de cuja existência nada tinha transpirado para mim. Viviam. Eu estava a milhares de quilómetros da terra familiar. Não compreendia a sua língua. Todos andavam depressa. E, ultrapassando-me, todos se separavam de mim. Perdi o pé.
Tinha pouco dinheiro. Para viver seis dias. Mas, ao fim deste tempo, os meus companheiros deveriam juntar-se-me. Todavia, a inquietação assaltou-me também acerca deste assunto. Pus-me então à procura de um hotel modesto. Encontrava-me na cidade nova e todos os que me apareciam cintilavam de luzes, de risos e de mulheres. Andei mais depressa. Qualquer coisa na minha marcha precipitada se assemelhava já a uma fuga. Por volta das oito horas, porém, fatigado, cheguei à cidade velha. Ali, um hotel de aparência modesta, com uma pequena entrada, seduziu-me. Entro. Preencho e minha ficha, recebo a minha chave. Tenho o quatro número 34, no terceiro andar. Abro a porta e encontro-me num compartimento muito luxuoso. Procuro a indicação de um preço: é duas vezes mais elevado do que eu pensava. A questão do dinheiro torna-se espinhosa. Já não posso viver senão pobremente nesta grande cidade.

Donnerstag, 4. Juni 2009

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Onde moro
Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada.
Por exemplo. Há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide.
Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide. Nunca mais ninguém o viu.Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia! Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide eMoscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide.
Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umaságuas-furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço. Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos.
O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada,Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja... ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola. Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...)
Ao ler os nomes de alguns sítios - Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na Europa. De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.
Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?", Só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz). É terrível.
O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro? Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda. Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas? É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra". Ninguém é do Porto ou de Lisboa.
Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossaterra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir. Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro). É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away...").
Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites. Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima !!! Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros. Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomesdos restaurantes giraços, tipo : Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais um Rissol. (...)
Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do "Bogadouro"¹, (Amarante), depois de ter parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).
¹ - Bogadouro é o Mogadouro quando se está constipado!!! "
Miguel Esteves Cardoso