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Montag, 22. Dezember 2008

seitens der Städte.. WIEN: Thomas Bernhard

WIEN 2008
Kino:G.Ludovice


Thomas Bernhard
9-2-1931, Heerlen, Holanda
12-2-1989, Gmunden, Áustria

Thomas Bernhard, escritor polémico e marginalizado, manteve sempre com seu país adoptivo uma relação de amor e ódio, reflectida também no seu testamento, no qual proibia expressamente a encenação de suas peças teatrais em território austríaco.
Suas obras foram objecto de polémica na Áustria mesmo após sua morte, especialmente seu último trabalho, Heldenplaz (1988), que denuncia o ressentimento anti-semita latente nesse país durante o pós-guerra.
Nos anos 50, dedicou-se à poesia, centrando-se nos temas da morte e da injustiça social, e, a partir dos anos 60, produziu textos teatrais provocadores, como Die Jagdgesellschaft (Grupo de Caça), 1973, nos quais protesta contra o espírito pequeno-burguês. Seus textos autobiográficos reflectem uma infância cheia de problemas.

Thomas Bernhard (TB) é, não só criador de um estilo, mas um dos escritores mais originais do século XX, tanto no domínio da ficção como do teatro. A poesia tem menos relevância no conjunto da sua obra. Autor prolífico, denso, musical - que foi, em simultâneo, uma figura truculenta, polémica, arrogante, elitista, corajosa e lúcida.
Autor de O Sobrinho de Wittgenstein, criou uma obra com uma construção de tipo musical, baseada em temas e variações.
Quando chego a Nathal, pergunto a mim próprio o que é que faço em Nathal, chego a Viena e pergunto a mim próprio o que é que faço em Viena.
E a verdade é que apenas sou feliz quando estou sentado no carro entre o lugar que acabei de deixar e o outro para onde me dirijo, apenas sou feliz no carro e durante a viagem, mas sou o mais o infeliz recém-chegado que se pode imaginar, onde quer que chegue, logo que chego sou infeliz. Sou daquelas pessoas que no fundo não suportam nenhum lugar do mundo e só são felizes entre os lugares de que partiram e para onde se dirigem. Ainda há alguns anos eu acreditava que uma tal fatalidade mórbida teria de conduzir forçosamente, dentro de pouco tempo, a uma loucura total, mas não me conduziu a essa loucura total, preservou-me efectivamente de uma tal
loucura, de que tive toda a minha vida o maior pavor.
Thomas Bernhard, O sobrinho de Wittgenstein, uma amizade, Assírio e Alvim, 2000

O escritor de Derrubar Árvores - obra agora lançada pela Assírio com tradução de José António Palma Caetano - gostava de Portugal, opondo-o à sua Áustria natal, sobretudo nas coisas simples. Diz o tradutor: "TB veio várias vezes a Lisboa, a primeira das quais, em 1974, e refere-se--lhe num postal como "cidade magnífica." O autor colocava, no mesmo plano de preferências, o nosso país e a Polónia, tendo deixado fragmentos de uma peça escritos num hotel de Sintra. Não era um conhecedor da literatura portuguesa, mas anotações suas revelam indecisão sobre onde colocar a acção de um livro a publicar: "Açores ou Sicília?" Mais à frente, hesita entre Pirandello e Camões, perdidos entre projectos.
Há inclusive referências a Portugal num livro de entrevistas. O que mais lhe agradava era o mar, a comida, os restaurantes.

Samstag, 18. Oktober 2008

seitens der Stadte : WIEN: Thomas Bernhard

seitens der Stadte : WIEN: Por causa dos Auersbergerianos

WIEN
Kino:G.Ludovice 2008

Será talvez porque a tolice de grupo é mais feia e aumenta sempre, embora se arrebite em ser um belo mundo.
Usava os olhos como companheiros de vida e só com eles se esfarrapava em conversa, mesmo que desusados os temas.
Havia indo perdendo essa florida Gentzgasse dos outros, que se pensa existir para todos nela se passearem, mas nem todos lá se continuam; existem números de sorte nos destinos e alguns calham ficar num outro tamanho, sem nome grande nem espaço para pessoas se atamancarem no plural.
Por vezes assomava-se à esquina que se acotovelava na tal Gentzgasse, confundindo-se entre o cá e o lá nos seus pensamentos, mas logo os seus pés eram desmembrados dos passos seguintes que já se iam misturar como bichos cavalos acossados pelo chicote no meio de uma cidade.
Não sabia quem era o usador desse apagador dos seus passos para aquela direcção, e essa inquietação era quase tão cara como pensar num Deus fora do seu pedestal, entre os homens a gargalhar na Gentzgasse. Esta parece ficar no centro, porque também parece que só lá pode haver alegria.
Mas pode não ser assim, pode ser que o som que vem de lá seja uma miragem de onde vêm sorrisos sem aquela mala do corpo.
Até pode ser que os outros ligados como estão vistos de fora da Gentzgasse, estejam afinal amarrados impiedosamente à força, quando bem observados lá dentro.
Não é que os seus ouvidos se inchem de histórias desses outros, mas nas pequenas frases que porventura lhe chegam até distorcidas, mesmo distorcendo-as para as fazer voltar à sua verdade, fica sem inveja desses todos, se a tinha num bocadinho de si, à laia de atrevida semente. Mesmo no esforço da contradição, o azul do céu enxota-a deles.
Debuta em solidão.

para Thomas Bernhard ( 1931/1989) Escritor austríaco
G.Ludovice 2008